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Produção de biocosmético na Amazônia é liderada por mulheres

1 de July de 20261 de July de 2026 by Beatriz Cardoso

ViaVerde News
17/06/2026

A produção de fitoterápicos indígenas, biocosméticos e produtos derivados da sociobiodiversidade ganha força em diferentes territórios da Amazônia por meio de iniciativas lideradas por mulheres. Projetos apoiados pelo…

A produção de fitoterápicos indígenas, biocosméticos e produtos derivados da sociobiodiversidade ganha força em diferentes territórios da Amazônia por meio de iniciativas lideradas por mulheres. Projetos apoiados pelo Fundo LIRA – Legado Integrado da Região Amazônica, iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, ampliam estruturas de beneficiamento, fortalecem organizações comunitárias e criam novas oportunidades econômicas a partir de conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.

As iniciativas fazem parte do ciclo 2025-2026 do Fundo LIRA, que apoia 53 projetos em 57 áreas protegidas da Amazônia Legal, distribuídas por sete estados, com investimentos de aproximadamente R$ 7 milhões.

Entre os projetos apoiados estão iniciativas lideradas por mulheres indígenas, extrativistas e rurais que atuam em mais de 60 comunidades e aldeias amazônicas. As ações envolvem diretamente mais de 1,2 mil pessoas e abrangem desde a preservação da medicina tradicional indígena até a produção de fitoterápicos, óleos e biocosméticos.

“Os projetos apoiados mostram que a sociobiodiversidade também é construída a partir do conhecimento acumulado pelas mulheres ao longo de gerações. Elas estão à frente de iniciativas que fortalecem a medicina tradicional, ampliam a produção de biocosméticos e criam novas oportunidades de renda nos territórios. São soluções que unem conservação, cultura e desenvolvimento local.”
Fabiana Prado, gerente do Fundo LIRA

Mulheres Apurinã são guardiãs de conhecimentos ancestrais

Na Terra Indígena Caititu, no sul do Amazonas, a Associação dos Produtores Indígenas da Terra Indígena Caititu (APITC) reúne o grupo de mulheres Pupykary, formado por mulheres Apurinã de dez aldeias que atuam na preservação e no uso de plantas medicinais. Com apoio do Fundo LIRA, está sendo estruturada uma unidade de beneficiamento e conservação de ervas, além da implantação de nove canteiros medicinais e da realização de atividades voltadas à troca de conhecimentos entre mulheres, jovens, anciãos e agentes de saúde.

A iniciativa beneficia diretamente 58 indígenas e busca fortalecer a medicina tradicional e a transmissão desses conhecimentos para as novas gerações. Segundo Regina, da APITC, o projeto ampliou a participação das mulheres, fortaleceu a troca de conhecimentos entre as aldeias e trouxe mais visibilidade para o trabalho desenvolvido pelas indígenas.

“As mulheres Apurinã são as principais guardiãs dos conhecimentos sobre as plantas medicinais. São saberes transmitidos pelas ancestrais e compartilhados com as novas gerações.”
Regina, da APITC

No Pará, a Aldeia Kaarimã, na Terra Indígena Xipaya, também vive um processo de fortalecimento da medicina tradicional. O Instituto Juma está estruturando o Espaço Ipá-Supá, iniciativa que beneficia 23 indígenas e é dedicada à produção de fitoterápicos desenvolvidos a partir dos conhecimentos do povo Xipaya. O projeto inclui a aquisição de equipamentos como estufa, desidratadora, prensa e seladora para beneficiamento dos produtos, além da formação de jovens e mulheres e de ações voltadas à valorização e continuidade desses saberes.

“Fortalecer a medicina tradicional não é apenas produzir remédios naturais. É fortalecer a cultura, a memória, a identidade e o futuro do povo Xipái”, afirma Deborah, do Instituto Juma. A expectativa é ampliar a produção e criar condições para a regularização e comercialização dos fitoterápicos. Segundo ela, as mulheres ocupam papel central nesse processo. “São elas que historicamente mantiveram vivos os conhecimentos sobre as plantas medicinais e hoje lideram processos de cultivo, produção dos fitoterápicos e formação dos jovens”, diz.

Jovens e mulheres indígenas utilizam ferramentas de monitoramento durante atividades de formação comunitária. A integração entre tecnologia e conhecimento local faz parte das estratégias de fortalecimento territorial apoiadas pelo Fundo LIRA (Foto: Acervo IREO / Rancejanio Guimarães)

A presença feminina também marca iniciativas voltadas à geração de renda e à agregação de valor aos produtos da floresta. No Médio Juruá, no Amazonas, a Associação de Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ) reúne 287 mulheres associadas de 50 comunidades. O projeto apoiado pelo Fundo LIRA fortalece a produção de biocosméticos, artesanato e biojoias por meio da aquisição de insumos, melhoria da infraestrutura produtiva e realização de capacitações técnicas. Ao todo, a iniciativa beneficia 1.148 mulheres e jovens do território.

“As mulheres sempre tiveram um papel fundamental no desenvolvimento das comunidades e das cadeias produtivas do território, mas muitas vezes esse trabalho era invisibilizado. Hoje elas lideram processos de produção, fortalecem umas às outras e conquistam mais autonomia financeira dentro das comunidades.” Kelly, da ASMAMJ

Outro exemplo vem do Pará, onde a Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Belterra e região, conhecida como Amélias da Amazônia, está ampliando sua estrutura produtiva para fortalecer a fabricação de produtos derivados da biodiversidade amazônica. A organização produz óleos, sabonetes, pomadas e outros itens elaborados a partir de matérias-primas da floresta.

A origem da iniciativa está ligada à busca por alternativas de renda para mulheres da comunidade. Segundo Marcilene, uma das fundadoras da associação, a ideia surgiu a partir do aproveitamento da andiroba, matéria-prima abundante na região. “A gente via a semente de andiroba se perder e começou a pensar por que não transformar aquilo que já sabíamos fazer em uma fonte de renda para as mulheres”, conta.

Com apoio do Fundo LIRA, a associação ampliou sua estrutura produtiva e passou a contar com instalações mais adequadas para a fabricação e armazenamento dos produtos. “A reforma trouxe mais segurança e melhores condições para o nosso trabalho. Hoje conseguimos produzir melhor, comercializar mais e continuar gerando renda para as mulheres da comunidade”, afirma Marcilene.

“Essas iniciativas mostram que investir nas mulheres é fortalecer redes de conhecimento, cuidado e geração de renda que já existem nos territórios. Quando elas têm acesso a estrutura, formação e apoio institucional, os impactos alcançam toda a comunidade.”
Neluce Soares, coordenadora do Fundo LIRA


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