Por Larissa Martins – 27/06/26
Iniciativas apoiadas pelo Fundo LIRA revelam que, para liderar a produção de fitoterápicos e biocosméticos, indígenas e extrativistas precisam superar leis proibitivas, o risco da dependência de editais e a sobrecarga das responsabilidades familiares.
A produção de fitoterápicos, óleos essenciais e biocosméticos liderada por mulheres na Amazônia costuma ser retratada pelas corporações com uma aura de romantismo. No entanto, por trás da sabedoria ancestral e da promessa da bioeconomia, existe uma realidade operacional complexa e frequentemente silenciada. Projetos apoiados pelo Fundo LIRA (Legado Integrado da Região Amazônica), iniciativa do IPÊ que beneficia mais de 1,2 mil pessoas em mais de 60 comunidades, mostram que a verdadeira batalha dessas líderes ocorre em duas frentes implacáveis: a sobrecarga invisível do trabalho doméstico e as barreiras regulatórias de um Estado que não compreende a dinâmica da floresta.
A produção de fitoterápicos, óleos essenciais e biocosméticos liderada por mulheres na Amazônia costuma ser retratada pelas corporações com uma aura de romantismo. No entanto, por trás da sabedoria ancestral e da promessa da bioeconomia, existe uma realidade operacional complexa e frequentemente silenciada. Projetos apoiados pelo Fundo LIRA (Legado Integrado da Região Amazônica), iniciativa do IPÊ que beneficia mais de 1,2 mil pessoas em mais de 60 comunidades, mostram que a verdadeira batalha dessas líderes ocorre em duas frentes implacáveis: a sobrecarga invisível do trabalho doméstico e as barreiras regulatórias de um Estado que não compreende a dinâmica da floresta.
Conteúdos
A reportagem da Ecoaliza cruzou os dados de divulgação oficial dessas iniciativas com questionamentos incisivos à coordenação do Fundo LIRA. As respostas desconstroem o verniz publicitário e revelam os gargalos reais que separam o discurso da prática na tão aclamada cadeia da sociobiodiversidade.
O Teto de vidro da floresta e a economia do cuidado
Quando se questiona o motivo de o trabalho feminino no extrativismo ser frequentemente invisibilizado e o que impede essas lideranças de ocuparem assentos de poder em conselhos gestores, a resposta foge da pauta ambiental e escancara a estrutura do patriarcado. Segundo a coordenação do Fundo LIRA, a principal trava é a forte questão cultural relacionada à divisão das responsabilidades de cuidado.
A realidade é que as mulheres da floresta acumulam as exaustivas tarefas de cuidar dos filhos, da casa e de outras atividades familiares. Quando surge uma oportunidade de participar de uma capacitação, reunião ou conselho que exige ausência prolongada da comunidade, elas frequentemente esbarram em um obstáculo primário: não têm com quem deixar as crianças.
Para garantir a inclusão real, não basta oferecer a vaga; é preciso oferecer infraestrutura. O Fundo LIRA relata que buscou criar condições práticas para acolher os filhos dessas mulheres durante os eventos e capacitações apoiados. A estratégia de estimular uma participação equilibrada entre gêneros também rendeu frutos: ao se criarem as condições adequadas, as próprias mulheres passaram a buscar esses espaços, criando redes de apoio mútuo e conquistando representação. A lição que fica é clara: não existe protagonismo sustentável sem antes resolver quem cuida da economia do cuidado.
O Abismo Regulatório: Saberes Ancestrais vs. Anvisa
Se a mulher amazônida consegue delegar o cuidado e estruturar sua produção artesanal, ela imediatamente colide com um segundo muro: a legislação brasileira. Projetos como o Espaço Ipá-Supá, liderado pelo Instituto Juma na Terra Indígena Xipaya (PA), almejam a regularização e a comercialização de seus fitoterápicos. O desafio é que as normas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) exigem de uma associação comunitária indígena os mesmos rigorosos protocolos aplicados à indústria química de larga escala.Para vencer esse abismo técnico e jurídico, a saída não é individual, mas coletiva.
O LIRA atua formando a “Rede LIRA”, que reúne organizações comunitárias com desafios regulatórios semelhantes para articular soluções com os órgãos responsáveis. Atualmente, o Fundo participa de uma rede específica de fitoterápicos da Amazônia que senta à mesa diretamente com a Anvisa e a Fiocruz, processo no qual o Instituto Juma está sendo integrado. Além da articulação política, a gestão orienta as associações a já preverem recursos financeiros em seus planejamentos apenas para custear essas demandas burocráticas.
Na ponta comercial, para evitar que o lucro final fique nas mãos de atravessadores, o programa oferece trilhas formativas focadas na elaboração de modelos de negócio. O uso estratégico da internet e o apoio técnico na criação de catálogos e gestão de redes sociais surgem como ferramentas vitais para tirar as produtoras da invisibilidade e conectá-las diretamente aos compradores finais.

O Risco dos “Elefantes Brancos” e a sustentabilidade de papel
A modernização da produção extrativista — com a chegada de estufas, seladoras e prensas — traz consigo o risco da alienação cultural e do desperdício de recursos. De forma transparente, o Fundo LIRA admite um problema crônico do terceiro setor: o surgimento de “elefantes brancos”. É comum que equipamentos doados fiquem parados e abandonados nas aldeias porque a manutenção é cara, faltam regras claras de uso ou o maquinário deixa de atender ao interesse coletivo.
Para mitigar esse risco, as demandas por tecnologia devem partir, obrigatoriamente, das próprias comunidades. A chegada de qualquer equipamento é acompanhada de capacitação e discussões prévias para definir quem vai utilizar e, principalmente, de onde sairão os recursos para os consertos futuros. O objetivo é que a tecnologia agregue valor sem substituir os conhecimentos tradicionais ou desrespeitar o tempo da floresta.
Mas como garantir que o aumento das vendas não gere uma pressão predatória e esgote os recursos naturais? A resposta institucional está atrelada à burocracia territorial. O Fundo exige que todas as iniciativas comprovem alinhamento estrito com os planos de manejo de Unidades de Conservação e planos de gestão em Terras Indígenas (sob orientações da Funai). É a obediência às regras oficiais e a obtenção das autorizações exigidas que buscam atestar o uso sustentável da biodiversidade local.

O Ciclo da Filantropia: Autonomia Comercial ou Nova Dependência?
O ponto mais crítico da apuração questiona o exit strategy (plano de saída) dessas iniciativas. Como evitar que associações extrativistas se tornem eternas dependentes de fundos de fomento filantrópico?
A resposta do LIRA revela o atual estágio de maturidade da bioeconomia amazônica: o foco do desenvolvimento institucional promovido ainda não é a independência total no mercado de livre concorrência, mas sim a profissionalização para captar novos recursos. O projeto oferece capacitações em elaboração de propostas, gestão institucional e prestação de contas com padrões rigorosos. O objetivo declarado é que essas associações ganhem experiência e regularização para poderem acessar outras fontes de financiamento governamentais ou privadas, além de linhas de crédito e novos editais.
O cenário demonstra que as cadeias da sociobiodiversidade ainda engatinham em direção à sustentabilidade puramente comercial. A autonomia ensinada hoje, vital para a sobrevivência das comunidades, é predominantemente a autonomia de saber navegar pela densa burocracia técnica para continuar acessando verbas de apoio contínuo.
No fim das contas, as mulheres que estão desenhando o futuro dos negócios na Amazônia provam diariamente sua força. Contudo, os dados e as respostas deixam claro que aplaudir um sabonete artesanal nas prateleiras do Sudeste é fácil. O verdadeiro desafio sistêmico é obrigar a sociedade e o Estado a garantirem infraestrutura básica de cuidado infantil, legislação sanitária inclusiva e fomento adequado para quem, de fato, mantém a floresta em pé.
